O dilema dos professores da internet

Esse texto estava na geladeira. Havia desistido de publicar, mas hoje o próprio motivo de eu o ter congelado comprovou o ponto que eu queria defender.

Antes de tudo, preciso deixar algo claro: eu era um otimista; achava que a internet nos traria o paraíso terreno, desencadeando uma era de sabedoria e iluminação. Ingenuidade pouca é bobagem, né? Não me culpo, o fim da história era o sentimento geral e, fora isso, eu realmente era jovem e ingênuo (e positivista, mas enfim…).

Otaku que sou, sempre me intriguei com o idioma dos samurais. Sim, meu interesse em estudar outros idiomas provavelmente foi desabrochado pelo japonês. Claro, o espanhol já me seduzira com sua sensualidade e o inglês já se tornara necessário, mas foi outro o que me levou a estudar seriamente pela primeira vez. Talvez o mais prazeroso naquele processo fosse o senso de comunidade: participar de uma fansub, de um fórum ou apenas «surfar a web» e encontrar essas comunidades. Ah!, os blogs, os sites mal-formatados, ah!, meu Deus, por que me abandonaste se sabias que eu era fraco?

Voltando ao assunto, após certo tempo surgiu algo que me embasbacou: um professor oferecendo uma abordagem completa e assistida. Num mar de informações desconexas onde eu desconexamente buscava informações, o farol aceso pelo professor Rafael me renorteou. Desnecessário dizer que eu não tive os recursos materiais necessários ao necessariamente pago pagamento (nem achei forma de piratear o material), mas notar as possibilidades me estupefez.

Após alguns anos, surgiram os professores do Youtube, com suas pílulas gratuitas e seus cursos pagos. Nada mais justo que viver do seu trabalho, mas me inquietava algo. Por que nenhuma boa alma se dispunha a dar sem cobrar? Onde estava a era das delícias intelectuais que me haviam prometido? Obviamente, não me referia a torrents de livros didáticos e de artigos científicos quando falava de meu Éden terrestre. Onde, então?

Eis que vos falo em realidade: até este ano eu meramente acumulei informações; apenas recentemente fui capaz de principiar a reconhecer as ligações. Dito de outra forma: até ontem, estudei os objetos; hoje, tomei conhecimento de suas relações. Sim, vejam a contradição: fator essencial para atrair público é oferecer ensinamentos, ocultá-los, entretanto, é o que faz dos espectadores alunos pagantes. Ora, que mundo asqueroso é este em que humano deve ser lobo de humano? Não um em que eu deseje viver, asseguro-te, nobre e elevadíssimo leitor, a quem jamais pedirei um centavo!

O que me impedia de publicar o que acabaste de ler era, parodiando Lorde Kelvin, uma nuvenzinha no céu do entendimento. Seu nome, professora Xiao Nan. Impressionava-me como uma professora, que estava sem alunos devido ao micróbio do cacete, podia doar-se toda semana, oferecendo semanalmente seu saber aos famintos — e por vezes ingratos — internautas. Pois é, «impedia», pretérito imperfeito.

Hoje, a professora, a quem culpa não deve ser imputada, mas, antes, louvor pelo período durante o qual bravamente lecionou de graça, anunciou que terá de se render ao mundo competitivo, tendo de abandonar o cooperativo. Mui me entristece ouvi-lo, mui me entristece comprovar estar certo desde o princípio. Infelizmente, não há saída à vista. Há, na verdade, mas nenhuma que nos mantenha no paradoxo aliciano de precisar correr o mais rápido possível para se manter no mesmo lugar.

«[…]
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
[…]
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
[…]»

— Carlos Drummond de Andrade

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