Preciso de férias

Então… Eu diria que a minha situação é periclitante. Em julho de 2020 eu deveria me formar (em dezembro de 2019, na verdade, mas as greves impediram), o que obviamente foi postergado pela conjuntura. Portanto, minha formatura passou para o fim deste nosso 2021. Até aí nada insuperável: sim, é muito chato um semestre virar 26 meses, mas é compreensível. Claro, ainda tenho atividades de pesquisa e um estágio pendente, mas fazer o que? A situação é excepcional, alguns meses de loucura serão necessários para o diploma. Daí eu recebi uma proposta de bolsa em algum lugar a muitos quilômetros de casa, mas a bolsa é condicionada a participar do vestibular deles e de um certo programa de preparo que nem é muito difícil, mas é trabalhoso. Ok, alguns meses de muita loucura, mas eu vou sobreviver: não há o que não acabe, e logo eu vou estar atirado num sofá tomando sorvete e fruindo de entretenimento barato sem nada na agenda além de mofar. Ocorre, entretanto, que eu fui aprovado em outro curso (esse era o plano A, ultimamente não sei mais, mas sigo querendo cursar para caso dê zebra no vestibular), mas que, por desencontro de calendários, começa 2 meses antes do atual terminar. Foi aí que eu comecei a me desesperar.

Lembrei deste texto esses dias. Invejo-a. Sem mais.

Sim, eu deveria escolher logo um curso e abandonar o outro para aliviar um pouco a minha carga, mas é justamente esse o ponto: a vida se tornou um atropelamento de tarefas a tal ponto que já não consigo mais parar e planejar algum esboço de futuro. Correndo o risco de estar querendo demais, diria que o que realmente desejo é um ano sabático. Talvez fazer umas duas viagenzinhas, estudar o meu árabe, o meu mandarim, o meu castelhano, ressuscitar o meu esperanto e o meu japonês, pôr a cabeça em ordem, cuidar da saúde, tornar o exercício e a meditação hábitos, melhorar meu sono, estudar história, filosofia, sociologia, me estressar um pouco com política, ler o meu Tolstói (que anda empoeirado), o meu Tolkien, a minha Cecília Meireles, ouvir o meu Adoniran Barbosa, o meu Black Sabbath… esse tipo de aspiração medíocre.

Enquanto a vida se vai, atropelada, o que sobra é cansaço. Valha-me Álvaro de Campos:

O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço…

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