Por favor, vocês são melhores que isso

Eu sou um nerd de idiomas (RIP, Nathalia), eu sinto um prazer enorme em estudar outras línguas, explorar as minúcias e particularidades de outras culturas. Não é surpresa, pois, que eu consuma uma caralhada de conteúdo sobre aprendizado de idiomas. Nada mais natural. Pois é, mas eu vejo um erro permear grande parte dos discursos reproduzidos em alguns desses blogs/podcasts/canais. Eu não me importaria se fossem apenas as blogueirinhas a insistir nessa idiotice, mas, infelizmente, ando vendo alguns professores gabaritados caindo na loucura, e isso me preocupa. É um erro tão infantil e óbvio que cansa a minha beleza ter que o explicar. Mas tudo bem, vamos lá: por que não devemos, quando estamos aprendendo um novo idioma, imitar os bebês?

Causa Biológica: o cérebro de um bebê não está plenamente desenvolvido

Parece desnecessário, mas, pelo visto, preciso dizer um óbvio: os aparelhos raciocinantes (a.k.a. miolos) de recém nascidos, adolescentes e adultos não funcionam da mesma forma. Justamente por estar em formação, um bebê tem uma capacidade absortiva inigualável: como não sabe o que será útil, o cérebro registra e guarda tudo e, conforme crescemos, o que se demonstra inútil é apagado. Pedir para o cérebro de um adulto atuar como o de um bebê é pedir para uma faca de manteiga servir como uma faca de serra. Isso sem falar no aparelho fonador: os bebês se adaptam à língua materna, produzindo a memória muscular necessária apenas aos sons necessários. Aprender um idioma com um inventário fonológico estranho a nós requer aprender a mexer músculos que desconhecíamos, requer superar uma vida inteira ignorando certos aspectos da fala, requer criar mecanismos neurológicos para acessar estruturas vocais ignoradas.

Causa Sociológica: um bebê não tem bagagem cultural

Quando aprendemos um novo idioma, não começamos do zero. O que acontece, em um primeiro momento, é a tradução do novo idioma e gradual assimilação de sua estrutura interna. Ou seja, usamos o idioma já conhecido para entender o novo; trazemos o que é alheio para dentro do que é próprio, onde pode ser devidamente estudado e compreendido e, se houver sucesso, a fronteira do que é próprio se expande até onde o que era alheio estava. Isso tudo foi um jeito chique de dizer que aprender uma língua além da materna não é uma mera absorção passiva de linguagem, mas sim um uso de conceitos já apropriados para criar sentido na outra língua, é uma relação dialética em que o que já é conhecido guia e, pelo menos inicialmente, molda o que se está estudando. Dito de outra forma, a única forma de se aprender outra língua é através de um processo antropofágico entre cultura-mãe e cultura-alvo. Quando o Paulo Freire falava em ensinar usando o contexto do aluno, ele estava reconhecendo esse processo e sugerindo incentivá-lo para que ele ocorra mais rapidamente.

Causa Psicológica: um bebê lida de outra forma com suas emoções

A emoção é essencial à memória. O cérebro atribui utilidade conforme o impacto emocional. Enquanto o mundo é uma aventura inédita e entender os pais é questão de sobrevivência a um bebê, um adulto geralmente vai possuir motivações muito menos instintivas e necessárias para estudar. A maturidade emocional é determinante para a vida adulta, e muda drasticamente como o sistema de atribuição de valor psicológico opera. Nesse sentido, parodiando Bourdieu, os circuitos de consagração psicológica serão tanto mais eficazes quanto menor for a distância psicológica entre consagrador e objeto consagrado e quanto maior for a utilidade psicológica ou impacto emocional ao consagrador.

Vamos parar de dizer groselha?

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