Ambiente de trabalho à la Google

Resposta a professor (sim, de novo).

O que Elton Mayo demonstrou é que o melhor carrasco é o interior. Se a chamada “Teoria Clássica” reflete a mentalidade de uma sociedade disciplinar, a “Teoria das Relações Humanas” deriva de uma sofisticação do processo de exploração do trabalho alienado, calcada na internalização da vigilância e da punição. Sob tal ótica, ambientes de trabalho construídos à imagem e semelhança de parques de diversão não são mais que ferramentas para nublar a percepção do trabalhador e impedi-lo de constatar quem é, de fato, o seu opressor.

Enquanto o século XX foi marcado pela reprodução, nos países ditos “ocidentais”, de um modelo de organização social voltado para a disciplina, que tacha indivíduos desviantes como loucos ou delinquentes; o que se nota no zeitgeist contemporâneo é o surgimento e rápido avanço de uma orientação distinta, uma outra métrica de aferição de valor dos sujeitos: o que conta para esta nova mentalidade que vem paulatinamente se instalando e disputando espaço com o antigo — embora ainda hegemônico — paradigma exposto por Foucault em “Vigiar e Punir” não é mais a estrita adesão a rígidas normas sociais, mas o sucesso individual e a felicidade constante (e, tão importante quanto, as suas demonstrações públicas). Conforme “A Sociedade do Cansaço”, do sul-coreano Byung-Chul Han, as novas estratégias de gestão e interação em mídias sociais não cobram aderência a códigos de conduta, mas, sim, desempenho.

Como consequência disto, os desviantes do novo modelo são o fracassado e o deprimido, ambos incapazes de atender ao chamado, aparentemente amigável, a uma produtividade e positividade que, em realidade, nada mais é que uma ameaça tão eficaz quanto o Panóptico de Jeremy Bentham, algo que Han chama de “violência da positividade”. A vigilância, operada antes pelo indivíduo e apenas posteriormente pelos pares, se dá sobre a produção e sobre as publicações em redes sociais. Ao mesmo tempo em que é do interesse do empregador que o trabalhador se sinta falsamente satisfeito com suas condições de trabalho, é exigido que este se “engaje” e grite a todos que ama seus grilhões, o que, pela ótica do empregado, é a reafirmação de sua felicidade (para os outros e para si mesmo); e, pela do capitalista, é peça publicitária (para a sociedade, para os funcionários e para o empresário) de sua empresa, não apenas por simplesmente chamar atenção à marca, mas também por transmitir a imagem de ser uma organização “do bem”.

Sobretudo, esta nova lógica se fundamenta em cortinas de fumaça. Ao proletário é permitido sonhar com bônus vultosos e pequenos benefícios, sempre condicionados a um desempenho exaustivo e à complacência ao ambiente de intoxicante alegria. O que é mascarado pelas supostas benécies, entretanto, é a mesma exploração já há tanto descrita, com o crescimento médio dos salários ao longo dos últimos anos sendo totalmente incompatível com o crescimento médio da produtividade, como mostra estudo da Economic Policy Institute.

O que se apreende, pois, é que o que está acontecendo não é um avanço satisfatório nas condições de trabalho, mas uma reestruturação que objetiva apenas cobrir com uma aura humanitária um sistema opressivo. Não nos livramos das correntes, apenas as pintamos com cores divertidas.

Quanto à última pergunta, sim, conheço empresas da cidade que empregam essas táticas. Minha irmã, por exemplo, trabalha em uma imobiliária e recebeu ano passado o prêmio de maior produtividade: um espumante e alguns doces. De fato, é impressionante como o capital consegue se moldar a ponto de fazer alguém chorar de alegria ao ser chamado a um palco para ouvir: “Parabéns! Você foi o trouxa mais explorado esse ano.”

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